Excerpt for Insônia da Matéria: Poemas e desesperanças by , available in its entirety at Smashwords

INSÔNIA DA MATÉRIA

INSÔNIA DA MATÉRIA



 

4ª EDIÇÃO








ANDRÉ CANCIAN








ED. ATEUS.NET

2007
































depois nada













SUMÁRIO


poemas

PASSAGEM

SENTIDO

ALMA

MIOPIA

EREMITA

ESCOLHAS

FELICIDADE

LOUCURA

LUTA

MÁSCARA

SENTIMENTO

CRIANÇA

SAUDADE

SILÊNCIO

SOLIDÃO

TRANSIÇÃO

AUSÊNCIA

ESPERANÇA

DESRAZÃO

VAZIO

SONHOS

TÉDIO

SENTENÇA

DISTÂNCIA

SOMBRA

COVARDE

NADA

ETERNAMENTE

GRÃOS

ILUSÕES

ACASO









PREFÁCIO

Os poemas que compõem este livro começaram a ser escritos por volta de 2002, quando percebi um tipo de dualidade, ou talvez mesmo uma cisão, no cerne da subjetividade humana.

Mesmo que precariamente, passei a investigar a natureza desse conflito, que veio a tornar-se cada vez mais central em meu pensamento.

Pessoalmente, sempre fui inclinado à racionalidade. Mas, ao mesmo tempo em que via o mundo numa perspectiva racional, perfeitamente lógica, baseada na ciência, tinha também a vaga percepção isso não era a questão toda — mas o que mais seria?

Procurava pelo sentido das coisas. Contudo, sabia que essa questão já havia sido solucionada — ora, o sentido é a perpetuação. Está em qualquer livro de Biologia. Então por que essa questão continuava a me incomodar? Não sabia dizer.

Perseguia-me a sensação de que havia uma incompletude fundamental no saber apenas racional da vida, e isso me causava um profundo mal-estar, pois minha razão dizia-me exatamente o contrário — que não havia incompletude alguma.

Por vários anos, tentei resolver essa questão, mas não conseguia sequer dar forma ao problema. Ainda sem entender claramente o que queria dizer, sentia a necessidade de expressar-me, e foi nesse processo de tentar trazer à luz algo que pertencia às profundezas que surgiram estes poemas.


André Cancian

2007



Poemas
















A vida é um escárnio sem sentido.
Comédia infame que ensanguenta o lodo.

— Álvares de Azevedo


PASSAGEM

Despeço-me do sonho de viver
Do delírio de um dia conseguir
De uma vez apenas ter as mãos
E o coração onde quero e como
Sem desviar disso como perda
Do tempo que perco sem pesar

Não, não acredito mais em mim
Nem no que invento para dar-me
Uma segunda, outra chance
De provar o contrário
Do que sempre foi
A minha vida

Se abrigo algo com afeto
É porque já está morto
Porque aprendi o traquejo
De não abraçar-me ao que muda
Não pensar-me preciso quando sou


[meio


Minha saudade é sempre mais amável
Minha memória diz mentiras perfeitas
Que nenhuma realidade desmonta
Em um punhado de palavras
[e outro de mentiras

Mesquinhas em entrelinhas
Que me fazem sentir a vida
Como se sente uma pedra

[no sapato

De quem precisa correr atrás
Correr, com passadas medidas
Correr, sem ter qualquer meta
Chamando a coleção de feridas
De história da sua vida

História de um idiota
Certezas de uma besta
Percursos de um imbecil
Objetivos de um estúpido
Trouxeram-me até aqui
Foi a história de um erro
Levado até os últimos fôlegos

[do engano

E cuja hora já passou

Agora, resto assim
A sujeira e os cacos
De um sonho perdido
Da amizade com o erro
Do sofrer sem o orgulho
Da luta para ser infeliz
Da solidão de um palhaço
Esforçado em levar-se a sério

Agora
Esforço-me em ver-me passar
E somente passar em branco
[ao negro


2006

SENTIDO

Não há mistério em existir
Nem em viver ou sonhar
Caminhar se faz por si
Sem erros nem acertos
No acaso de cada passo

Mas quanto do insondável
Abraça a alma se desanda

[e olvida

E em seguida se procura
[por sentido

E naquilo que encontra
Quanto mais do impossível
Se abriga então nessa miopia

Preso na teia do sentido
Naquilo que mente do início
No que deveria ter esquecido
[de inventar

Noutro infeliz descuido
[de otimismo


Agora me refugio
Olhando tudo ao lado
Acima e abaixo
Repetindo
Fui vivo
Fui assim
Eu lembro
E esqueço
E perco-me
A caminhar
À frente sem rumo
Existindo para trás
Vivendo só a cãibra
De sempre se retorcer
Sem nunca se encontrar
Em qualquer direção
Em qualquer tempo
Nunca na posição
De descansar
Do engano
De buscar
Mais alento
No desespero
Da mesma história
De quem deu um passo

[certo

E não pode apagá-lo
E não vê mais sentido
A continuar em círculos
A fugir do próprio vácuo

Procuro outra quimera
Pouco menos mesquinha
Somente algo pequeno
Que caiba no dia a dia
De uma vida abortada
Que perdeu os passos
[e a paciência

Enquanto contava
As horas e os segundos
De uma morte atrasada

Algo já desiludido
De um caminho novo
Algo já cansado

[vencido

Por si mesmo
Destemido
Do erro

Procuro e encontro
Outro atalho para onde vivo
[perdido

Entre certezas e restos
E a minha solidão
O meu abrigo
Que não é lar
Nem amigo
Mas sabe calar
Quando todo som
[é ruído

E todo sonho é ruína

E por ora isso basta
E por ora nada peço da vida
Só por saber que acaba tão cega


[como se inicia

2006

ALMA

Por não ser o que penso
Calo em mim o que sou
Se dou com um espelho
Vem à boca o vômito
Ridículo conhecer-me
[por dentro


Não sepultei a vida diante do impossível
[nem do
ordinário
Continua a mesma, ingênua, insólita
[infância

Alheia àquilo que falta
Sem saber se falta

Nunca me esqueço de rir
Sempre que me vejo sério
[no espelho

Esquecido do valor do desprezo
[pela vida


Não perdi o momento oportuno
Não foi meu pesar ter crescido
Antes ou depois do tempo
Soube limpar da vista a escuridão
De crer que é errado se desgarrar
[da convenção

Para saber em primeira mão
O que há na luz branca
Despida dos macetes
Dos que viveram antes
[e mesmo mortos

Querem-se importantes


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